
* Há quem diga que uma imagem vale mais que mil palavras. Que essa imagem, aliada as palavras e ao texto seja elucidativa na mesma medida da dose de realidade experimentada por nossa heroína.
O mocinho planejou tudo por semanas, em todos os detalhes. Trocou cartas por meses, e com elas enviava estrelas, para que a mocinha não estranhasse o céu que ele lhe prometeu. Depois de aguardar o tempo necessário decidiu acabar com aquele ‘e se’ que o consumia. Fez todas as manobras possíveis, lutou contra uns dragões, rodeou o castelo... a mocinha na janela da mais alta torre já lhe sorria. Ela aguardou por meses a fio seu resgate, todas as noites imaginou seu rosto naqueles segundos confusos que antecedem o sono. Não era tão crescido quanto imaginara e suas pernas e braços tremiam à medida que seu coração saltava de ansiedade... Daí, durante a escalada ele lembrou que deixou o feijão no fogo, que tinha que pegar a tia doente na rodoviária, sentiu vontade de fumar outro cigarro, dor-de-cabeça, dor-de-barriga, ou qualquer coisa do tipo. Desceu os poucos metros que subira, deu umas moedas para o porteiro, pegou o elevador. Entrou depressa e deu um selinho na princesa sem ao menos saborear o momento e de nervoso esqueceu o número da árvore em que estacionou o Alasão. Chamou um táxi. Entre suas desculpas, desvios e atalhos não houve entrega ou alegria, pois a proximidade do amanhã inevitável já o assombrava e fez vã toda a sua jornada. Ela olhava pra ele e ele olhava pela janela durante todo o caminho. Pediu ao motorista que o deixasse primeiro em casa porque era mais perto e a princesa foi embora resignada e sozinha, com sua metade da corrida para pagar e tentando não pensar nos planos que fizera. Ele devia entrar na torre pela janela, suspende-la em seus braços com carinho, cavalgar abraçados para longe dali. Eles entrariam numa cabana na floresta, o príncipe fecharia atrás de si a porta e as janelas sem tirar os olhos dela e então eles ouviriam apenas o som dos pássaros e da chuva lá fora. Ele não diria banalidades, não ligaria a TV. Toda a sua atenção e seus sentidos estariam voltados para ela. Ele devia beijar seus olhos, sua testa, seu ombro, morder de leve a ponta da sua orelha direita, respirariam no mesmo compasso e brindariam com um longo beijo quente aquele momento sublime. Mas ela precisava dissipar aquelas nuvens de sonhos, pois ele ignorou todos os seus avisos e sucumbiu à própria covardia. Então ela ordenou ao motorista que desse meia volta, pediu que ele parasse na beira do caminho, pendurou, ao lado da placa “só solteiros” outra que dizia “apenas maiores de 30 anos”, e seguiu de volta ao castelo para mais uma vez trancar-se em sua torre. Menos que um sonho, aquela realização foi nada! Ficou apenas uma sensação, como ele mesmo dissera, de que ‘não custava tentar”.
Mais uma vez você precisou de mim e aparentemente eu não estava lá para te apoiar. Mais uma vez você chorou sem ter meu ombro e me dói saber que raramente eu sofro ser ter o seu. Eu simplesmente não me recuperei ainda de todas as confusões ocorridas, porque fui julgada e condenada sem poder me defender. E eu cumpri minha pena confusa e sozinha e exagerei na reação quando senti que algo parecido podia acontecer novamente. Agora eu não sei o que eu faço pra trazer você de volta e pra estancar essa sua dor que há meses não para de doer.
Amigo, eu queria te saber como você me sabe, queria que você fosse tão previsível quanto eu. E eu sei que você sabe que isso não é só peso na consciência, que estou mesmo compadecida da sua tristeza. E eu preciso que você entenda que estávamos sendo observados, que eu não podia simplesmente te pegar no colo, se acabavam de comentar comigo sobre seu comportamento e de especular sobre sua vida. Eu respondi o que podia, disse a eles que você estava apenas sendo você mesmo, como sempre foi. Eu tentei fugir com você da maldade dos olhos alheios à verdade e você pedindo o que sempre me deu: ouvidos. Eu os tinha e ainda os tenho, só que naquele momento escolhi a razão porque isso tudo vai passar e daqui a pouco você me esquece outra vez, mas as fofocas ficarão e eu precisava conte-las ali.
Eu não posso e não quero escolher um lado, mas o meu coração sempre escolhe o seu e você precisa saber que pode contar comigo de inúmeras maneiras e que eu te amo, meu grande amigo, acima das convenções.
|
|
||||
|
||||
![]() | ||||
|
||||